quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Aforismo 297

Não há aforismo sem cinismo. Da mesma forma que não há religião sem martírio - primeiro morre-se; depois ressuscita-se -, não há aforística sem cinismo.

Aforismo 296

Liberdade de pensamento e de conduta - está mais próximo dela [ou dela é melhor cultor] quem não se carboniza nas chamas do hedonismo. [Carbonizar não é queimar. E quem se queima afasta-se e cura-se.]

Aforismo 295

Definição - democrática - de loucura: incapacidade de destrinçar o sagrado do profano; e incapacidade de os integrar.

Aforismo 294

A aprendizagem da morte é isto: ou há uma segunda oportunidade; ou não há. Nada mais.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Aforismo 293

Síntese da História de Portugal: em vez de resolução e de entendimento , temos ego.

Aforismo 292

A perda da inocência eclode quando se tem de reconhecer a importância de haver – de gerir – recursos. [Sim, recursos. E sim, gerir.] E nenhum recurso – o orbe, a divindade, o corpo, o espírito – é inexaurível. Perdemos a inocência quando conhecemos a finitude – a nossa e a do mundo.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Aforismo 291

Líderes - há os bons [ou os melhores, de entre todos]; e há os que começaram cedo e terminaram tarde, e os que começaram tarde quando queriam ter começado cedo. Uma liderança pesa-se como se pesa o tempo. E um bom líder ou não espera, ou sabe esperar [e terminar].

Aforismo 290

Há dois tipos de famílias - dois tipos de lugares-ninho: as famílias onde se pode errar [e ser injusto]; e as famílias onde não se pode errar, e onde se pode errar constantemente - o que, na realidade, constitui o mesmo.

Aforismo 289

O que é que elimina o pudor? A [assumida] doença; a [convencionada] beleza; e a [presumida] superioridade social.

Aforismo 288

É tão difícil um plácido viver em ansiedade quanto é um ansioso viver em placidez. É mais fácil um plácido viver em ansiedade do que um ansioso viver em placidez. Enfim: há modos de sobrevivência; e há vícios.

Aforismo 287

Perto da vista: distante da consciência - longe da memória.

Aforismo 286

No que verdadeiramente importa, se tens de pedir é porque não mereces - ou porque não és considerado merecedor. [E não mereces, primordialmente, porque de ti não dás - não revelas - o que verdadeiramente importa - ou o que é considerado importante.]

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Aforismo 285

Um bom aguilhão para a acção – e para a boa acção – é saber que nenhuma palavra pode resgatar e redimir a omissão – e a má acção. Falar, escrever, conspurcar o silêncio: criámos e controlámos – educámos, afinal – as palavras para aligeirar a imperiosidade e o controlo – o fardo, afinal – dos actos. [Em vez da mão – a voz; em vez do rosto – a civilização.]

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Aforismo 284

Na política, em face do caos - da realidade desordenada - há só uma opção: criar uma nova realidade. A política é arte: controla e torna inteligível, não por intermédio da análise, mas através da criação - que, como é necessário, é acção que destrói e exclui.

Aforismo 283

Um homem erudito é um repertório de citações [colhidas noutros repertórios, noutros homens]. Um homem sábio é uma fonte de aforismos [colhidos nele mesmo]. [Um aforismo concentra o mundo nos moldes em que ele pode ser concentrado - um mundo falsificado, parodiado.]

Aforismo 282

Aprender pressupõe, na origem, no percurso e no destino, esta coisa: o amor pelo erro. Mas é um amor não incondicional, não romântico, não narcisista - é um amor que, como todo o verdadeiro amor, abandona a coisa amada quando ela muda - ou morre -, ou quando nós mudamos - ou morremos.

Aforismo 281

Um erro é fonte de sofrimento - é certo. Mas, neste mundo, tanto mais sofrimento traz - aprendamos algo com ele, erro, ou não - quanto mais nos obriga a ser humildes.

Aforismo 280

Colocar, em palavras, a hipótese de desistir, de terminar, é lavrar já uma futura sentença de morte [de desistência; de término]. Quantas mais sentenças... Pelo mesmo lado, enunciar, em palavras, a hipótese de porfiar, de principiar, é lavrar já uma prematura sentença de morte. Quantas mais sentenças... [As palavras matam - primeiro o silêncio; depois o resto.]

Aforismo 279

O homem é nómada - a mulher é sedentária. O homem quer várias coisas debaixo de vários tectos - a mulher quer tudo debaixo de um só tecto. O homem quer uma casa aonde possa somente regressar - a mulher quer uma casa aonde nunca precise de regressar.

Aforismo 278

É esta a pergunta de toda a história recente: existe Deus? Um argumento para a inexistência é o mal que existe, o mal que é feito. Mas o mal é uma hierarquia [tem cabeça, vísceras, esqueleto, carnadura, membros] e é uma história [pública, privada e caótica]. Se Deus interviesse para impedir - ou prevenir - o mal, onde estaria a responsabilidade do homem? Haveria homens ou perpétuos infantes? [E onde estaria o amor?]

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Aforismo 277

Um homem - dizei-lhe que é escumalha, que é indigno, réprobo, que não tem valor. Porfiai, convencei-o destas coisas. E ele acabará por saber porquê: por que acções é indigno, por que omissões é a chusma da terra - mais do que a verdadeira escumalha.

Aforismo 276

O que é educar, no presente? É ter - e seguir - duas listas. Uma que arrola o que os meninos gostam; a outra descrimina o que eles não gostam. [Escrevi «gostam» - e não «devem» ou «precisam». Escrevi, repito, «gostam».]

Aforismo 275

Em política, a sorte premeia os arrojados? Não. Por um lado, a sorte recompensa, como é óbvio, quem não conta com ela. Por outro, a sorte beneficia quem consegue convencer de que a tem - ou que a ela tem direito. [Isto, meus senhores, não é arrojo - é teatro.] [[E é preciso querer ser actor.]]

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Aforismo 274

Nesta terra, o que faz uma elite ser elite? Não é o conhecimento - mera distracção; não é o dinheiro - idem aspas. São os símbolos - que traduzem a assunção dessa condição - e a reprodução - o esforço incessante e furioso de reprodução. Falta um terceiro factor: os homens e as mulheres coadjuvantes - que acreditam nos símbolos, que almejam a condição, que auxiliam na reprodução mas que não se reproduzem.

Aforismo 273

Na vida de um homem emergem muitos homens. Na vida de uma mulher - nas vidas de todas as mulheres - há só uma mulher.

Aforismo 272

O que é um perdedor – um vencido? Não é aquele que foi derrotado por um inimigo. É aquele que foi derrotado por um amigo*.



[*Glosa: Um vencido não é, com efeito, aquele que foi derrotado por um inimigo. Se tem inimigos tem valor, poder, impressão digital – e merece ser tratado com violência, ardil, consideração. O verdadeiro vencido, a despeito do que faz ou merece, tem o tratamento contrário: é o indivíduo que – por impostura, desprezo, estupidez, por ser desconsiderado e apoucado – é derrotado por um amigo. Não falo, claro está, de traidores – de amigos que são inimigos. Falo de amigos que juram, de mãos em prece, que a amizade deles é incomensurável.]

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aforismo 271

Nem a arte [ou a criação] copia a vida, nem a vida copia a arte. Em ambas ocorre o mesmo - adicionar é igual a subtrair, menos é igual a mais.

Aforismo 270

Usar - e acreditar na supremacia - de um olhar analítico e crítico é o mesmo que transportar - e utilizar - sempre uma peneira. De tanto peneirar, de tanto sacudir a peneira, não fica nada - nem uma posição, nem um compromisso, nem uma intuição.

Aforismo 269

Se vale a pena fazer o bem, vale a pena fazê-lo por completo. [Um bem pela metade - porque esconde, porque adormece, porque avilta - é pior do que um mal completo - que põe a descoberto, que acorda, que limpa.]

Aforismo 268

Para um liberal, quem não partilha cria riqueza. Para um socialista, quem não partilha rouba riqueza. Para um conservador, quem partilha delapida sem respeito o património dos antepassados. Para um progressista, quem partilha delapida com respeito o património do planeta.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Aforismo 267

É valorizada em demasia a necessidade de se dizer como devem ser, ou como serão, os assuntos do homem - em detrimento da capacidade de se dizer como foram, ou como são. Profeta e político - são estas as profissões mais antigas do mundo. [E um aforismo pretende denunciar a forma das coisas passadas e presentes - também com a secreta aspiração de anunciar a forma das coisas futuras.] [[Aforista e poeta - são estas as profissões mais impossíveis do mundo.]]

Aforismo 266

Um populista é um elitista. Quanto melhor - ou mais bem sucedido - for o populista, pior - ou mais exclusivista - será o elitista. [Seduz o povo quem o reduz.] [[ Seduzir é reduzir.]]

Aforismo 265

O que é a burocracia? É controle - é um cabresto. E, como os cabrestos, assim fica - desapercebido, susceptível de ser cada vez mais apertado e manietado.

Aforismo 264

A memória colectiva de um povo é forjada a partir do que é: histórico; lendário; característico [ou típico]; e tradicional. O primeiro elemento, por nunca estar acabado, é o menos relevante; os outros, por serem inventados, assumem a dianteira.

Aforismo 263

Há coisas que nos acontecem - por negligência, ingenuidade, amor, ódio, por azar. Há coisas que nos acontecem que poderiam ser piores - e [porque] serão piores.

Aforismo 262

Um ego intumescido - o que é? É uma assinatura falsa - uma assinatura falsificável.

Aforismo 261

Percebemos muito de uma época quando percebemos que o que tem de ser justificado - explicado - é o rito e o símbolo - e não a sua ausência [ou a ausência do seu sentido].

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Aforismo 260

Nunca cessa de me impressionar a crueldade dos jovens e dos velhos - os primeiros porque, não tendo passado, ainda não lhes pesa o futuro [ou a consciência]; os últimos porque, não tendo futuro, já não lhes pesa o passado [ou a consciência]. [E entre eles e eles, nós - os emparedados.]

Aforismo 259

Vivemos uma crise de passagem de testemunhos. Eventualmente [na família, no mundo profissional, na política], a passagem será feita; mas somente nos termos arbitrários de quem cessa [a actividade ou o exercício da autoridade ou do poder]. A forma, o tempo e os destinatários da passagem ou são impostos, ou não há continuidade. Quem depois vier terá de reconstruir o mundo. Pensando melhor, não vivemos uma crise de passagem de testemunhos. Vivemos uma constante estrutural, passe a redundância, que é bem o resumo do país - e da minha região.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Aforismo 258

É esta a fórmula para uma sociedade aberta: um nome não pode ser uma herança. De todas as heranças, é a que colhe maior reconhecimento - um reconhecimento mais implícito, silencioso, incontestável, sinuoso, perverso. Ao invés de um pecúlio prosaico, material, perecível, um nome é uma herança sobrevivente e não se delapida. Desenganemo-nos: esta sociedade não é, no limite, sedenta de materialidade - é sedenta de diferenciação social.

Aforismo 257

A dependência das redes e tecnologias virtuais equivale à dependência do álcool - antes de existirem [redes, tecnologias, álcool - adormentadores da realidade; realidades dormentes], não existia nada. [O esquecimento ou é misericordioso - ou é mortífero.]

Aforismo 256

Não há razão para contestar o valor do que têm os velhos para nos dar ou ensinar. Ensinam-nos a ter medo - os objectos do medo; a medida do medo. Mas, de valor, não pretendem ensinar outra coisa.

Aforismo 255

A qualidade dos líderes de uma sociedade é igual à qualidade dos seus velhos. Por conseguinte.

Aforismo 254

Que elite existe - ou é considerada? Não é uma elite que tem - ou que faz. É uma elite que, simplesmente, é. [Se é uma elite que tem - não interessa o que faz; se é uma elite que faz - não lhe era lícito fazer.]

Aforismo 253

A liberdade, hoje: primeiro, atitudes; segundo, conhecimento [ou opiniões]; finalmente, civilidade. A liberdade, ontem: primeiro, civilidade; segundo, conhecimento [ou opiniões]; finalmente, atitudes.

Aforismo 252

Podemos pensar no que faz uma amizade de verdade: o que a faz é a memória, é uma memória partilhada. Essa memória [e o princípio dessa partilha] constitui não só um apanágio do tempo: forja-se em momentos [breves; longos] onde o extremo impera, onde a destruição campeia - na guerra; na juventude.
[Refiro-me à amizade entre homens; entre mulheres - não sei. Alguém saberá?]

Aforismo 251

Nomear um preconceito consiste em inaugurar o processo da sua morte [que será lenta] - ou o processo da sua substituição [que será silenciosa].

Aforismo 250

Parece óbvio, mas é muitas vezes olvidado: não deveríamos aceitar desculpas privadas de quem nos ofendeu em público; não deveríamos aceitar desculpas públicas de quem nos ofendeu em privado.

Aforismo 249

O exercício da política é um antídoto para egocêntricos - porque obriga a arrostar as evidências e coloca em confronto os egocêntricos que compõem a multidão; o exercício da política cria egocêntricos - quando a realidade não conta - ou não chega -, cria-se outra.

Aforismo 248

Sim, o poder corrompe; e não só corrompe - estupidifica.

Aforismo 247

Um egocêntrico? Um egocêntrico coloniza o mundo. [Não são importantes o método e os instrumentos - mas sim a vontade.] [[E pode ser apenas - ou costuma ser apenas - uma colonização com o pensamento.]]

Aforismo 246

Que mundos? Um em que o conhecimento e a convicção equivalem a agressividade [e a cinismo]. Um em que a ausência de conhecimento e de convicção equivalem a agressividade [e a cinismo]. Dois mundos - um mundo.

Aforismo 245

O bom carácter não se apregoa - pensam uns e afirmam outros [todos de bom carácter, claro está]. Pensam todos, ainda, que o carácter - como a coragem - está acima da pequenez dos dias correntes - num mundo de heroísmo pontual. Não está. No quotidiano perfunctório, há sempre algo a fazer. Por exemplo: calar o boato - cortar-lhe a meada. ["Daqui não passará" - um murmúrio inaudível no imo de cada um - longe do pensamento e da boca.]

Aforismo 244

Quais os critérios usados para se ajuizar (i) o mérito de um indivíduo e (ii) a justeza de uma acção? A (i) popularidade - do indívíduo - e a (ii) disseminação - da acção.

Aforismo 243

O melhor método para forjar ou alicerçar uma mentira é propagá-la.

Aforismo 242

Um crime é hediondo? Então é crível. Qualquer acusado é imediatamente culpado. E qualquer culpado é suficiente [porque necessário]. [Não há sociedades de paz.]

Aforismo 241

Um homem [ou uma mulher] pode ser [ou se tornar] imune a uma declaração de amor; um homem [ou uma mulher] não é [ou dificilmente se torna] imune a uma declaração de amizade. Amor há apenas um - diz-se; amizades há muitas.

Aforismo 240

Explicação do progressismo: a ideologia torna-se sentimento. Explicação do conservadorismo: o sentimento torna-se ideologia.

Aforismo 238

A adversidade forja más memórias - e boas ruínas.

Aforismo 237

A lança da memória que nos trespassa é a mesma que nos sustém em face do abismo.